Todos os fins de semana, o ritual repete-se: estádios cheios, televisões ligadas, debates infinitos sobre golos, arbitragens e transferências milionárias. O futebol português vive desta paixão. Mas há uma parte do jogo que raramente entra na conversa — o jogador da Liga 2 que espera há meses pelo salário, o jovem dispensado aos 19 anos sem rede de apoio, o atleta que ouve insultos racistas vindos das bancadas e continua a jogar porque não sabe que mais fazer.
É para estas pessoas, e não para as estrelas dos cartazes, que Luciano Gonçalves trabalha todos os dias.
À frente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) há mais de uma década, Gonçalves tornou-se uma das presenças mais constantes no debate público sobre o futebol em Portugal. Não é treinador, não é presidente de clube, não aparece nos resumos da jornada. O seu palco é outro: salas de reunião, tribunais de trabalho, estúdios de televisão e, sempre que necessário, o balneário de um clube em crise.
O futebol que não aparece na televisão
A ideia de que todos os futebolistas profissionais são ricos é talvez o maior mal-entendido do desporto português. Por cada contrato milionário que faz manchetes, existem centenas de jogadores com salários modestos, carreiras curtas e vínculos que nem sempre são cumpridos. Os salários em atraso — sobretudo nos escalões secundários — são um problema antigo que o sindicato denuncia há anos, e que Luciano Gonçalves tem colocado repetidamente na agenda pública.
O trabalho do SJPF é, em grande parte, invisível: apoio jurídico a jogadores com ordenados por pagar, aconselhamento contratual, negociação coletiva, acompanhamento de casos de lesão e de rescisão. Não gera golos nem celebrações. Mas é o que separa, muitas vezes, um atleta abandonado à sua sorte de um profissional com alguém a lutar ao seu lado.
As causas que levou à praça pública
Ao longo dos anos, Luciano Gonçalves tem usado a sua voz para puxar temas que o futebol preferia muitas vezes varrer para debaixo do tapete. O racismo nos estádios é um dos exemplos mais visíveis: depois de vários incidentes que marcaram o futebol português, o presidente do sindicato tem estado entre os que exigem sanções mais firmes e uma mudança de cultura, recusando a tese de que se tratam de episódios isolados sem gravidade.
Outro campo de batalha tem sido a integridade do jogo. Com o crescimento das apostas desportivas, Gonçalves tem alertado para a vulnerabilidade dos jogadores — sobretudo os mais jovens e os mais mal pagos — perante abordagens ligadas a esquemas de viciação de resultados. A lógica é simples: um jogador com salários em atraso é um alvo mais fácil. Proteger o jogador é também proteger a competição.
A saúde mental, o apoio aos atletas no fim da carreira e a valorização do futebol feminino completam um conjunto de causas que marcam a sua atuação pública. Em comum, têm o mesmo princípio: o jogador — homem ou mulher, estrela ou anónimo — é antes de mais um trabalhador com direitos.
Um cargo que exige resistência
Dirigir um sindicato de futebolistas não é tarefa fácil. As carreiras são curtas, os jogadores mudam constantemente de clube e de país, e a solidariedade de grupo é difícil de construir num meio tão competitivo. Some-se a isso a tensão natural com ligas, federações e clubes, e percebe-se que o cargo exige uma dose considerável de persistência.
Luciano Gonçalves nem sempre agrada a todos — e talvez nem deva. O papel de um dirigente sindical não é agradar, mas representar. E num futebol cada vez mais globalizado, onde os interesses financeiros crescem a um ritmo que nem sempre protege quem está dentro de campo, ter alguém a fazer perguntas incómodas tornou-se parte do equilíbrio do jogo.
O futebol português continuará a viver dos golos e das paixões. Mas a dignidade de quem joga constrói-se longe dos relvados, em batalhas que raramente fazem manchetes. É aí, nesse território silencioso, que o trabalho de Luciano Gonçalves ganha o seu verdadeiro significado.