António Costa é um dos rostos mais reconhecíveis da política portuguesa das últimas duas décadas. Foi primeiro-ministro entre 2015 e 2024, liderou três governos socialistas, presidiu à Câmara Municipal de Lisboa durante oito anos e, desde dezembro de 2024, assumiu a presidência do Conselho Europeu, um dos cargos mais influentes da União Europeia. Quem procura entender a sua trajetória encontra uma carreira marcada por governos estáveis, recuperação económica pós-troika, contradições e, sobretudo, uma notável capacidade de sobreviver a tempestades políticas — até ao dia em que não conseguiu.
Origens e formação
António Luís Santos da Costa nasceu em Lisboa, a 17 de julho de 1961. É filho do escritor Orlando da Costa, de origem goesa, e da jornalista Maria Antónia Palla. O ambiente familiar, marcado pela literatura e pelo jornalismo, colocou-o cedo em contacto com os debates políticos do pós-revolução portuguesa.
Formou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e filiou-se no Partido Socialista nos anos oitenta. A entrada na política ativa foi precoce: ainda jovem, tornou-se vereador da Câmara Municipal de Lisboa e, no final dessa década, deputado à Assembleia da República. Nos anos noventa, integrou os governos de António Guterres, primeiro como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, depois como ministro da Reforma do Estado e, entre 1999 e 2002, como ministro da Justiça.
Esta fase inicial revelou dois traços que o acompanhariam: uma apetência para cargos de alta exposição e uma resistência considerável à pressão política. Nem tudo correu bem — em 2007, como ministro da Administração Interna no governo de José Sócrates, foi demitido no contexto da polémica em torno do projeto Freeport, um outlet na Alcochete. Foi um revés, mas durou pouco.
Lisboa: a vitrine política
Em 2007, Costa venceu as eleições autárquicas em Lisboa, iniciando um mandato que se prolongou até 2015 e que incluiu reeleições com maiorias folgadas. O período ficou marcado pela aposta no transporte coletivo (a reformulação da rede de transportes da cidade foi controversa na altura, mas endureceu com o tempo), pela dinamização do turismo e pela reabilitação urbana de zonas históricas.
A experiência em Lisboa deu-lhe aquilo que muitos políticos nacionais nunca adquirem: gestão concreta de um território, com orçamentos, obras e eleitores a exigirem resultados tangíveis. Também lhe deu visibilidade nacional. Em 2014, desafiou a estrutura do PS ao concorrer às primárias do partido contra António José Seguro, o líder oficial. Venceu de forma clara, forçou a demissão de Seguro e assumiu a liderança socialista meses antes das eleições legislativas.
A "geringonça" e a chegada ao governo
Nas legislativas de 2015, a coligação de centro-direita Portugal à Frente venceu as eleições, mas perdeu a maioria absoluta. O presidente Cavaco Silva, depois de uma breve solução de governo de direita que caiu em poucas semanas, acabou por confiar a formação de governo a António Costa, apesar da relutância inicial.
O resultado foi um acordo inédito: um governo minoritário do PS apoiado no parlamento pelo PCP, pelo CDS-PEV e, mais tarde, pelo PAN. A imprensa apelidou a solução de "geringonça", um nome que muitos previam ser efémero. Durou quatro anos completos.
Nesse primeiro mandato, o governo inverteu várias medidas do período de austeridade imposto após o resgate financeiro de 2011: devolveu cortes salariais aos funcionários públicos e às forças de segurança, aumentou sucessivamente o salário mínimo — de 505 para 760 euros até ao final de 2021 — e reconstruiu pontes com os parceiros sociais e sindicais.
Resultados económicos e o ciclo de crescimento
A conjuntura ajudou. A recuperação da economia europeia, a explosão do turismo em Portugal e políticas orçamentais prudentes combinaram-se para produzir números raramente vistos no país: o défice público desceu de valores próximos de 4,4% do PIB em 2015 para margens abaixo dolimite europeu em 2017, permitindo a saída de Portugal do procedimento por défice excessivo; o desemprego, que rondava os 12-13% em 2015, caiu para valores próximos dos 6% em poucos anos; e o país encadeou anos de crescimento acima da média europeia.
Nada disto foi linear. A administração pública continuou a enfrentar críticas nos tribunais e na saúde, o setor bancário arrastou problemas legados (casos Banif e Novo Banco), e o boom turístico veio a agravar a pressão sobre o alojamento em Lisboa e no Porto. Aos poucos, a habitação tornou-se o principal desafio do seu segundo mandato, levando ao fim dos vistos gold para investimento imobiliário e a um pacote legislativo ("Mais Habitação") que dividiu opiniões e produto efeitos limitados nos preços das rendas.
Ainda assim, a leitura predominante do eleitorado foi favorável. Em 2019, o PS ganhou as eleições com cerca de 108 deputados, reforçando a posição de Costa, que passou a governar em minoria "simples", sem acordos formais de esquerda. Em 2022, após a demissão forçada por rejeição do orçamento do Estado (o chamado "caso TGV"? não — o episódio envolveu propostas de rendas e uma rebelião de deputados do BE e PCP), o PS conquistou uma maioria absoluta com 117 deputados, algo que o partido não conseguia desde 2005.
A queda: Operação Influencer
A maioria absoluta durou pouco em termos práticos. Em novembro de 2023, a Operação Influencer, uma investigação da Polícia Judiciária sobre concessões envolvendo lítio, hidrogénio verde e centros de dados, levou à detenção do chefe de gabinete de Costa, Vítor Escária, e a buscas em estruturas do governo. Embora o próprio primeiro-ministro não fosse arguido, a proximidade de pessoas do seu círculo direto tornou a situação insustentável.
Na noite de 7 de novembro de 2023, após reunião com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa anunciou a demissão, afirmando ter agido sempre com integridade, mas considerando que a continuação no cargo era incompatível com qualquer suspeita sobre a sua conduta. Foi um final abrupto para um dos mais longos ciclos de governo da democracia portuguesa.
Permaneceu em funções, limitado à gestão dos assuntos correntes, até às eleições de março de 2024. O PS perdeu para a coligação Democracia Aliança de Luís Montenegro, e Costa deixou São Bento em abril de 2024. Mais tarde, em 2025, o Ministério Público veio a arquivar o inquérito que lhe dizia respeito, embora o processo tenha avançado contra outros arguidos. Para os apoiantes, o arquivamento confirmou a versão da defesa; para os críticos, os danos institucionais do episódio continuavam por contabilizar.
O salto para Bruxelas
Mesmo antes de deixar o cargo, o nome de Costa já circulava nas conversas europeias para um cargo de topo. Em junho de 2024, os líderes da UE escolheram-no para presidente do Conselho Europeu, sucedendo ao belga Charles Michel. Tomou posse a 1 de dezembro de 2024, para um mandato de dois anos e meio.
O cargo é menos visível do que o de primeiro-ministro, mas decisivo: cabe ao presidente do Conselho Europeu presidir às cimeiras dos líderes dos Estados-membros, mediar conflitos internos, representar a União no palco internacional nos temas de política externa e manter a coesão num bloco de 27 países com interesses frequentemente divergentes.
A sua herança foi imediata: a guerra na Ucrânia, as tensões comerciais globais, apressões sobre a defesa europeia e a economia. Observadores apontam que a longa experiência de Costa em negociações domésticas complexas — sabe lidar com comunistas, liberais e conservadores ao mesmo tempo — é precisamente a competência que o cargo exige. Os críticos, por sua vez, lembram que o estilo de consenso que funcionou em Lisboa nem sempre encaixa num palco onde cada decisão exige a unanimidade de 27 governos.
Um percurso em equilíbrio
Olhar para a trajetória de António Costa é olhar para uma década inteira de Portugal. O país que recebeu em 2015 — sob resgate, com desemprego elevado e confiança institucional em baixa — era muito diferente do que deixou em 2024. Reduziu défice e desemprego, reconstruiu a confiança externa e devolveu estabilidade governativa durante quase nove anos. Também deixou questões por resolver: a saúde pública sob tensão crescente, uma crise de habitação que se agravou durante o seu mandato, e episódios de transparência que mancharam a imagem do executivo.
A passagem para o Conselho Europeu completa o percurso de um político que começou nas estruturas locais de Lisboa e chegou ao centro da decisão europeia. O modo como gerir a política de consensos num momento de fragmentação geopolítica dirá muito sobre o lugar que acabará por ocupar na história — a de Portugal, e a da Europa.