Há algo no US Open que o distingue dos outros torneios do Grand Slam. Talvez seja o rugido do público de Nova York, a energia quase elétrica que percorre as quadras de Flushing Meadows, ou simplesmente o facto de ser o último Grand Slam da temporada — aquele onde as tensões acumuladas ao longo do ano finalmente explodem. Independentemente do motivo, o US Open de ténis ocupa um lugar especial no calendário desportivo mundial.
Uma Breve História
O torneio nasceu em 1881, ainda sob o nome de U.S. National Championship, e realizou-se inicialmente no Newport Casino, em Rhode Island. Durante décadas, foi exclusivamente um torneio masculino em relva. As mulheres só entraram em cena em 1887, e a mudança para o piso duro aconteceu em 1978, quando o torneio se mudou para o USTA National Tennis Center em Flushing Meadows, Queens.
A adoção do piso duro (DecoTurf, mais tarde substituído pelo Laykold em 2020) foi uma decisão que definiu a identidade do torneio. Diferente da relva de Wimbledon ou do saibro de Roland Garros, o piso novo-iorquino favorece um jogo mais direto, com bola a viajar de forma mais previsível e velocidades moderadamente altas. Isso criou uma dinâmica onde tanto grandes sacadores quanto jogadores de fundo de quadra consistentes podem prosperar.
Quando e Onde Se Realiza
O US Open ocupa as duas últimas semanas de agosto e as primeiras de setembro. Em 2024, por exemplo, o sorteio principal decorreu entre 26 de agosto e 8 de setembro. É o quarto e último Grand Slam do ano, depois do Australian Open, Roland Garros e Wimbledon.
O USTA Billie Jean King National Tennis Center, no Flushing Meadows-Corona Park, é a casa do torneio desde 1978. O complexo impressiona pela dimensão: possui 22 quadras, incluindo os estádios principais — o Arthur Ashe Stadium (o maior estádio de ténis do mundo, com capacidade para cerca de 23.700 espectadores), o Louis Armstrong Stadium e o Grandstand.
Uma particularidade icónica do US Open é o ruído constante. Os aviões que sobrevoam a zona de LaGuardia, o murmurar da multidão, a música ambiente — tudo isso cria uma atmosfera mais parecida com um festival desportivo do que com o silêncio reverente que se espera em Wimbledon. Para alguns jogadores, é inspirador. Para outros, é um desafio de concentração adicional.
As Modalidades em Competição
O US Open vai muito além do simples individual masculino e feminino. O torneio inclui:
- Individual masculino e feminino — os eventos principais, com sorteios de 128 jogadores cada
- Pares masculinos e femininos — duplas com sorteios de 64 equipas
- Pares mistos — uma competição que atrai nomes de topo em formatos mais descontraídos
- Quadrod de qualificação — três rondas disputadas antes do sorteio principal, onde jogadores fora do top mundial tentam conquistar um lugar
- Wheelchair ténis — competições para atletas com deficiência motora
- Junior e sénior — categorias para jovens promessas e veteranos
O sistema de qualificação é particularmente interessante. Oferece a jogadores menos conhecidos a oportunidade de entrarem no torneio e causarem surpresas memoráveis — algo que acontece com frequência surpreendente no Flushing Meadows.
Formato e Regras Específicas
O formato é de eliminatória simples (mata-mata). Os encontros são disputados ao melhor de cinco sets no individual masculino e ao melhor de três sets no feminino, pares e mistos.
Uma característica distintiva do US Open é o tiebreak decisivo no set final. Diferente de Wimbledon, onde o último set ia até alguém abrir dois jogos de vantagem (regulamento mudado recentemente), o US Open adotou desde 1970 o tiebreak no quinto set masculino e no terceiro set feminino. Em 2022, os quatro Grand Slams unificaram o critério: agora, todos usam um super tiebreak (até 10 pontos) no set decisivo a 6-6.
Outra especificidade: o US Open utiliza a tecnologia de rastreamento eletrónico (Hawk-Eye Live) para chamadas de linha desde 2022. Não há mais juízes de linha humanos — todas as chamadas são feitas por sistema eletrónico em tempo real, com uma voz automatizada a anunciar "out" ou "fault". Esta mudança reduziu erros de arbitragem, mas eliminou um elemento dramático que os fãs mais tradicionais apreciavam: os pedidos de desafio.
Grandes Campeões e Momentos Memoráveis
A lista de vencedores do US Open é uma espécie de quem é quem do ténis mundial.
No individual masculino, Jimmy Connors, Pete Sampras e Roger Federer partilham o recorde da era aberta com cinco títulos cada. Rafael Nadal conquistou quatro, e Novak Djokovic — que em 2023 completou o seu 24º título de Grand Slam precisamente em Nova York — soma três coroas em Flushing Meadows.
No individual feminino, Serena Williams é a rainha indiscutível com seis títulos, seguida de Chris Evert com seis também. Nos últimos anos, nomes como Naomi Osaka (bicampeã em 2018 e 2020) e Iga Świątek (campeã em 2022) têm renovado o palmarês.
Alguns momentos ficaram gravados na memória coletiva:
- A final de 1980 entre McEnroe e Borg, uma precursora da lendária final de Wimbledon do mesmo ano
- A noite em que Serena Williams estreou o seu catsuit preto em 2002
- A vitória de Juan Martín del Potro em 2009, derrotando Roger Federer numa final eletrizante
- O emocionante discurso de aposentação de Serena em 2022, jogando os seus últimos jogos no Arthur Ashe Stadium
- A campanha de Emma Raducanu em 2021, vinda da qualificação e vencendo o torneio sem perder um único set — algo inédito na era aberta
Dinheiro e Ranking
O US Open oferece as maiores premiações do ténis. Em 2024, o prémio total ultrapassou os 65 milhões de dólares, com os campeões de individual a receberem 3,6 milhões de dólares cada. Até os jogadores que perdem na primeira rodada do sorteio principal levam para casa um cheque significativo.
Em termos de ranking, o torneio distribui 2000 pontos para o campeão, 1200 para o finalista, e quantidades progressivamente menores para as fases anteriores. Os pontos são geridos pela ATP (ténis masculino) e pela WTA (ténis feminino), e valem durante 52 semanas.
Como Assistir ao US Open
Para quem está no Brasil ou em Portugal, as opções de transmissão variam. A ESPN detém os direitos em muitos mercados, e plataformas de streaming como a ESPN+ cobrem extensivamente o torneio. Em Portugal, a Eurosport e canais desportivos por cabo costumam transmitir os principais encontros. Verificar a programação local é sempre aconselhável, pois os direitos mudam periodicamente.
Assistir em pessoa é uma experiência que vai muito além do ténis. O Flushing Meadows transforma-se numa espécie de cidade dentro da cidade durante as duas semanas do torneio: zonas de alimentação variadas, lojas oficiais, ecrãs gigantes nas áreas exteriores, e uma atmosfera festiva que dura até altas horas da noite. As sessões noturnas do Arthur Ashe — sob o teto retrátil e com luzes que rivalizam com qualquer espetáculo — são consideradas das melhores noites do desporto mundial.
Os bilhetes variam enormemente em preço. Os primeiros dias do sorteio principal são mais acessíveis, enquanto as semifinais e finais podem custar milhares de dólares. Para quem quer poupar, os bilhetes para as rondas de qualificação (disponíveis gratuitamente ou por valores simbólicos nos primeiros dias) oferecem a oportunidade de ver jogadores de topo a treinar e a competir num ambiente mais íntimo.
O Impacto Cultural do Torneio
O US Open transcende o desporto. É um evento cultural e social de Nova York, com celebridades a enchercem as primeiras filas, marcas de moda a usarem o torneio como montra, e a cidade inteira a respirar ténis durante aqueles dias de final de verão.
O torneio também tem sido um espaço de progresso social. Desde Billie Jean King a lutar pela igualdade de prémios entre homens e mulheres (implementada no US Open em 1973 — o primeiro Grand Slam a fazê-lo), até Arthur Ashe, o primeiro homem afro-americano a vencer o US Open em 1968, o torneio tem uma tradição de pioneirismo.
A "Fan Week", que antecede o sorteio principal, inclui sessões de treino abertas ao público, autógrafos e eventos interativos — uma iniciativa que reforça a proximidade entre atletas e adeptos.
Dicas Para Quem Quer Acompanhar
Se é a primeira vez que segue o US Open de ténis com atenção, algumas sugestões práticas:
Não se foque apenas nos favoritos. As primeiras rondas oferecem encontros imprevisíveis e permitem descobrir jogadores que podem dominar o ténis nos próximos anos.
Preste atenção à sessão noturna. A atmosfera noturna do Arthur Ashe é incomparável. Os encontros das 19h (hora local) frequentemente produzem os momentos mais dramáticos.
Siga o quadro de qualificação. As surpresas do US Open muitas vezes começam ali.
Acompanhe os pares. A competição de duplas oferece ténis de alta qualidade com uma dinâmica mais rápida e acessível, muitas vezes com entradas mais baratas.
Perspetivas Para o Futuro
O US Open continua a evoluir. A introdução de mais tecnologia, a expansão das instalações e os esforços para tornar o evento mais sustentável e inclusivo são tendências que devem acentuar-se. O torneio também enfrenta o desafio de equilibrar tradição com inovação — manter a sua identidade única enquanto se adapta a novas audiências e expectativas.
Com a ascensão de novas gerações de jogadores — Carlos Alcaraz, Jannik Sinner, Coco Gauff entre eles — o US Open de ténis promete continuar a ser palco de rivalidades épicas e histórias que transcendem o desporto.
É, no fim de contas, mais do que um torneio. É uma celebração do ténis no seu estado mais puro e caótico — e é precisamente isso que o torna imperdível.