Quando o chão de Lisboa parou de tremer, na manhã de 1 de novembro de 1755, restava pouco além de escombros. O terramoto que devastou a capital portuguesa, seguido pelo fogo e pelo tsunami, não apenas destruiu edifícios — destruiu a confiança de um país inteiro. No meio daquela devastação, um homem de postura rígida e convicções inabaláveis olhou para as ruínas e viu, não um fim, mas uma oportunidade. Sebastião José de Carvalho e Melo, que a história registraria como o Marquês de Pombal, não era dado a hesitações. A sua resposta ao caos tornou-se lenda: "E agora? Enterramos os mortos e cuidamos dos vivos."
Esta frase, repetida ao ponto de se tornar quase um lugar-comum, diz algo fundamental sobre o personagem. Pombal era um homem de ação. E foi precisamente essa determinação implacável que o transformou num dos governantes mais influentes — e mais controversos — da história portuguesa.
O Estrangeirado que Queria uma Nova Portugal
Antes de ser o homem forte do reinado de D. José I, Carvalho e Melo serviu como diplomata em Londres e Viena. Essa experiência no estrangeiro marcou-o profundamente. Em Londres, observou de perto o funcionamento do comércio britânico, a força das instituições financeiras, a eficiência administrativa. Em Viena, conviveu com o despotismo esclarecido e com a ideia de que o Estado podia — e devia — moldar a sociedade.
Quando regressou a Portugal, trouxe consigo uma convicção: o país estava atrasado, preso à influência da Inquisição, ao poder dos jesuítas e a uma aristocracia que resistia a qualquer mudança. Portugal precisava de modernização. E Pombal via-se como o homem capaz de a conduzir.
A nomeação como Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros em 1750, e posteriormente como primeiro-ministro de facto, deu-lhe o instrumento que faltava. O poder.
As Reformas Que Mudaram Portugal
O programa reformista de Pombal foi vasto e, em muitos aspetos, visionário. Reorganizou o exército. Reformou a administração colonial, acabando com o sistema de capitanias hereditárias no Brasil e criando as capitanias gerais, centralizando o controle sobre a colónia mais rica da coroa. Estabeleceu monopólios estatais sobre o comércio do vinho do Porto e de outras atividades económicas, fortalecendo o Estado em detrimento de interesses privados.
No campo educativo, a sua ação foi igualmente decisiva. A expulsão dos jesuítas em 1759 não foi apenas um ato político — foi um ataque ao monopólio educativo que a Companhia de Jesus mantinha há séculos. Pombal substituiu o ensino jesuíta pelas aulas régias, laicas e controladas pelo Estado. Criou a Real Mesa Censória, assumindo o controlo da censura que antes pertencia à Inquisição e à Igreja. Fundou o Colégio Real dos Nobres para formar a elite administrativa. Reorganizou a Universidade de Coimbra com estatutos novos, orientados para o ensino das ciências e do direito, afastando o predomínio da teologia.
Tudo isto foi feito com a lógica de quem acredita que o progresso exige ruptura. E a ruptura, no caso de Pombal, raramente foi suave.
A Reconstrução de Lisboa e a Cidade Pombalina
O terramoto de 1755 foi, paradoxalmente, o momento em que Pombal provou a sua capacidade de realização. A reconstrução da Baixa lisboeta não se limitou a repor o que existia antes. Pombal impôs um novo conceito urbano: ruas largas e perpendiculares, edifícios padronizados com estrutura antisísmica — o famoso gaiola pombalino, uma armação de madeira concebida para absorver a energia dos sismos —, fachadas uniformes, praças ordenadas.
A cidade que resultou desse plano não era apenas funcional. Era uma declaração de princípios. A Lisboa pombalina era a materialização de uma ideia: o Estado podia ordenar o espaço, controlar a forma e impor a razão onde antes existia o caos. Os arquitetos Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel executaram o plano, mas a visão era de Pombal.
Até hoje, quem caminha pela Baixa de Lisboa está a caminhar dentro do projeto de um homem. As ruas geométricas, os edifícios de altura regulada, a própria sensação de ordem que aquele bairro transmite — tudo isso é herança pombalina.
O Lado Sombrio: Tavora, Inquisição e Poder Absoluto
Mas a mesma mão que reconstruiu Lisboa foi a mão que ordenou o massacre dos Távora. Em 1758, após um atentado contra o rei D. José I, Pombal usou o incidente para eliminar os seus inimigos mais poderosos. A família Távora, uma das mais antigas da nobreza portuguesa, foi acusada de conspiração. O processo foi conduzido sem as garantias jurídicas mínimas. As sentenças foram brutais: execuções públicas, confiscos de bens, destruição do palácio dos Távora, cujo terreno foi salgado para que nada ali voltasse a crescer.
A crueldade do episódio chocou mesmo os padrões da época. E não foi um caso isolado. Pombal utilizou sistematicamente o terror como instrumento político. Ampliou os poderes da Inquisição quando isso lhe convinha — embora a tivesse subordinado ao Estado — e não hesitou em perseguir, prender e executar quem se opusesse às suas reformas.
O paradoxo é evidente: o homem que modernizou Portugal, que limitou o poder da Inquisição e expulsou os jesuítas, era também um autocrata que governava pelo medo. As suas reformas trouxeram progresso, mas o preço pago em liberdade e em vidas foi alto.
A Queda e a Herança
Pombal governou enquanto D. José I viveu. Quando o rei faleceu em 1777, a sua proteção desapareceu. A rainha D. Maria I, que nutria profunda aversão ao ministro do pai, afastou-o imediatamente do poder. Os prisioneiros políticos foram libertados. Os exilados regressaram. O próprio Pombal foi submetido a inquérito, embora nunca tenha sido formalmente condenado — a idade avançada e a fragilidade física serviram-lhe de escudo final.
Nos últimos anos, retirado na sua quinta de Oeiras, o antigo todo-poderoso viu parte do seu edifício reformista ser desmantelado. Mas o essencial sobreviveu. A universidade reformada, a estrutura administrativa, o urbanismo de Lisboa, a nova relação com o Brasil — tudo isso permaneceu como fundação sobre a qual Portugal se construiu nos séculos seguintes.
A Avaliação Que Nunca Se Encerra
A figura de Pombal resiste a julgamentos simples. Não cabe confortavelmente na categoria de herói nem na de vilão. Foi simultaneamente um modernizador e um tirano, um visionário e um carrasco. As suas reformas abriram caminho para a Portugal iluminista, mas os seus métodos mancharam esse caminho de sangue.
Talvez a melhor forma de compreender Pombal seja aceitar essa dualidade como parte indissociável do seu legado. A Lisboa que ele reconstruiu continua de pé. As instituições que ele criou moldaram o país durante gerações. E a pergunta que ele deixou no ar — até onde pode o poder do Estado ir em nome do progresso? — continua a ser, duzentos e cinquenta anos depois, uma das questões mais difíceis da política e da moral.
Pombal não pediu desculpas. Não era desse tipo. Mas a história, que ele tentou dominar, acabou por ser mais generosa e mais severa do que ele alguma vez imaginou.