Há quem diga que a Ordem dos Médicos é uma espécie de Santa Inquisição moderna. Outros, que é apenas um cartório que carimba licenças. A verdade costuma estar no meio — e é muito mais interessante do que parece.
Ontem, num café em Campo de Ourique, ouvi dois amigos discutirem um caso que circula nas redes sociais: um médico suspenso por dois anos por ter receitado tratamentos não convencionais. Um dos amigos achava absurdo. O outro, médico há trinta anos, limitou-se a perguntar: «Se não fosse a Ordem, quem definiria os limites? O tribunal? A televisão?» A pergunta ficou suspensa no ar, como o vapor do café.
A Ordem dos Médicos não é um clube fechado. É, antes de mais, o guardião de um contrato social tão antigo quanto Hipócrates. Quando um paciente entra numa consulta, está a entregar não apenas o seu corpo, mas também a sua vulnerabilidade. A Ordem existe para garantir que essa confiança não é traída — nem por incompetência, nem por ganância, nem por charlatanismo.
Mas, como toda a instituição humana, tropeça nos seus próprios dilemas. Há dois anos, assisti a uma sessão do Conselho Nacional da Ordem. A discussão era sobre a responsabilidade de médicos que fazem publicidade enganosa em redes sociais. Um conselheiro levantou-se e disse, meio em tom de confissão: «Estamos a tentar regular o futuro com regras do passado.» Ninguém discordou.
O que a Ordem faz — e o que deixa de fazer — reflete, afinal, as contradições de toda a sociedade portuguesa. Quando a pandemia começou, foi a Ordem quem primeiro alertou para a falta de equipamentos. Foi também a Ordem que, meses depois, teve de suspender médicos que recusavam ser vacinados. O mesmo livro de estatutos que protege a liberdade clínica obriga à defesa da saúde pública. A tensão é permanente.
Há quem se queixe de lentidão nos processos disciplinares. Outros acusam a Ordem de excesso de zelo. Mas ninguém propõe alternativa credível. No Reino Unido, o General Medical Council perdeu credibilidade após escândalos de racismo institucional. Em Espanha, o Colégio de Médicos é visto como um sindicato sem dentes. Em Portugal, apesar de tudo, a Ordem ainda é ouvida — e temida — quando fala.
A questão não é se a Ordem é perfeita. É se consegue evoluir sem perder a essência. O novo código deontológico, aprovado no ano passado, inclui pela primeira vez o direito dos doentes a uma segunda opinião e a proibição explícita de práticas discriminatórias. São pequenos passos, mas vêm tarde para muitos.
Num hospital público do Porto, uma médica recém-especialista contou-me que recebeu um e-mail da Ordem a lembrar-lhe que «o juramento não termina ao fim do estágio». Riu-se, mas guardou a mensagem. «É como ter um avô severo que, apesar de tudo, nos faz sentir seguros», disse.
Talvez seja isso que a Ordem dos Médicos represente: um avô severo num mundo cada vez mais impaciente. Imperfeito, lento, mas ainda capaz de lembrar que, antes de sermos pacientes ou profissionais, somos humanos. E que algumas fronteiras não devem ser ultrapassadas, por mais modernos que pensemos ser.
A próxima vez que ouvir falar numa suspensão ou numa condenação, vale a pena perguntar: o que estaria em risco se não houvesse quem defendesse essas fronteiras? A resposta pode não ser confortável, mas é necessária. Como o café que, mesmo amargo, acaba por nos acordar.
Quando a sala de espera se transforma em tribunal
Source: HotArticle
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