Há um lugar em Portugal onde as pessoas cumprimentam-se com "Bos dies" em vez de "Bom dia", onde os contos populares são narrados numa língua que soa familiar mas estranha ao mesmo tempo, e onde uma tradição linguística milenar resistiu ao peso do tempo. Esse lugar é a Terra de Miranda, e a língua é o mirandês — a segunda língua oficial de Portugal, reconhecida por lei mas ainda desconhecida para a maioria dos portugueses.
O que é exatamente o mirandês?
O mirandês, ou lhéngua mirandesa como dizem os seus falantes, é uma língua românica pertencente ao grupo asturo-leonês. Não é um dialeto do português, como muitos pensam. Trata-se de uma língua com história própria, raízes próprias e regras gramaticais distintas, que partilha ascendência com o asturiano e o leonês — línguas faladas do outro lado da fronteira, em Espanha.
A confusão é compreensível. O mirandês e o português nasceram do mesmo tronco latino e convivem há séculos no mesmo território. Mas a relação entre as duas é mais a de primas do que a de mãe e filha. O mirandês reteve características do latim que o português abandonou, e desenvolveu traços que o aproximam mais das línguas do norte de Espanha do que de Lisboa ou do Porto.
Uma questão geográfica
O mirandês sobrevive numa área geograficamente pequena: a região da Terra de Miranda, no concelho de Miranda do Douro, distrito de Bragança, no nordeste de Portugal. Esta é uma zona de planalto, recortada pelo rio Douro, com invernos rigorosos e verões secos. A relativa isolamento geográfico contribuiu decisivamente para a preservação da língua ao longo dos séculos.
As aldeias onde o mirandês ainda se fala — Sendim, Vilar Seco, Paradela, Paço, Constantim, entre outras — são comunidades rurais onde a tradição oral manteve vivas as canções, os provérbios e as formas de contar histórias que fazem parte do património mirandês.
Estima-se que entre 10.000 e 15.000 pessoas tenham conhecimento ativo da língua, embora o número de falantes quotidianos seja significativamente menor. A transmissão geracional enfraqueceu-se nas últimas décadas, sobretudo a partir dos anos 60 e 70 do século XX, quando a emigração e a escolarização em português começaram a alterar profundamente o perfil linguístico da região.
O reconhecimento oficial
O momento decisivo na história moderna do mirandês aconteceu em 1999, quando a Assembleia da República aprovou a Lei n.º 7/99, que reconhece oficialmente os direitos linguísticos dos falantes de mirandês e estabelece medidas para a promoção e salvaguarda da língua. Este reconhecimento não foi apenas simbólico — abriu portas para a introdução do mirandês como disciplina facultativa nas escolas da região e para a criação de materiais didáticos e ortográficos padronizados.
Antes disso, o mirandês existia num limbo legal. Falava-se em casa, nas ruas, nas feiras e nos campos, mas não tinha qualquer presença formal. A escola, a administração pública e os media funcionavam exclusivamente em português. O reconhecimento de 1999 não transformou a realidade do dia para a noite, mas deu à língua uma dignidade institucional que antes não tinha.
Características da língua
Para quem ouve mirandês pela primeira vez, a sensação pode ser paradoxal: parece português, mas não é. Algumas palavras são facilmente reconhecíveis, enquanto outras parecem vir do espanhol ou de outra língua qualquer.
A fonologia mirandesa distingue-se em vários pontos. A conservação do F- latino inicial, que o português transformou em H- mudo (latim filium > mirandês filho, mas português filho pronunciado com H aspirado ou mudo), é uma das marcas mais evidentes. O mirandês também preserva consoantes finais que o português perdeu ou modificou.
No vocabulário, as diferenças são constantes. "Água" em mirandês é auga. "Noite" é nuite. "Amanhã" é mana. A palavra "homem" transforma-se em ome. Estas formas lembram frequentemente o aragonês, o asturiano ou mesmo o catalão, revelando a posição intermédia do mirandês na família das línguas românicas ibéricas.
A gramática mantém distinções que o português simplificou. O sistema verbal mirandês tem formas próprias, e a sintaxe permite construções que soariam estranhas em português mas que fazem perfeito sentido em mirandês.
A ortografia e a padronização
Um dos desafios históricos do mirandês foi a falta de uma ortografia unificada. Durante séculos, a língua existiu quase exclusivamente na forma oral. Os primeiros registos escritos sistemáticos começaram no século XIX, com os trabalhos de José Leite de Vasconcelos, pioneiro da linguística portuguesa que estudou e documentou o mirandês com rigor académico.
No século XX, outros investigadores continuaram o trabalho, mas cada um seguia critérios ortográficos ligeiramente diferentes. A partir dos anos 80, os linguistas Amadeu Ferreira e António Maria Mourão dedicaram-se à criação de uma ortografia padronizada, culminando no Acordo Ortográfico de 1999, que estabelece as convenções atualmente utilizadas.
Hoje existe um corpo crescente de textos escritos em mirandês — desde traduções de obras clássicas (incluindo excertos da Bíblia e de Camões) até poesia original, contos populares recolhidos e publicados, e mesmo algum conteúdo digital.
O mirandês na escola
A introdução do mirandês no sistema educativo foi uma das concretizações mais visíveis da lei de 1999. Desde então, nas escolas do concelho de Miranda do Douro, é possível ter aulas de mirandês como disciplina opcional. Os alunos aprendem a escrever, a ler e a comunicar na língua dos seus avós — uma experiência que para muitos é simultaneamente um regresso às raízes e uma descoberta.
Os materiais didáticos foram desenvolvidos ao longo dos anos, incluindo manuais escolares, dicionários e gramáticas. Amadeu Ferreira, professor e linguista falecido em 2015, foi uma figura central neste processo. A sua obra inclui traduções notáveis para mirandês e a compilação de uma gramática de referência que continua a ser utilizada.
No entanto, a presença do mirandês nas escolas continua a ser limitada. As condições materiais — falta de professores qualificados, redução das turmas, dificuldades financeiras — dificultam a expansão do ensino da língua. Muitos jovens da Terra de Miranda sabem que o mirandês existe e valorizam-no como parte da sua identidade, mas nem todos o falam fluentemente.
Cultura e identidade
O mirandês é mais do que um meio de comunicação — é um marcador identitário profundo. Os habitantes da Terra de Miranda orgulham-se da sua língua, que os distingue do resto de Portugal e que os conecta a uma tradição rural de valores fortes: o respeito pela terra, a solidariedade comunitária, a memória dos antepassados.
A cultura mirandesa expressa-se em múltiplas formas. As cantares mirandesas — canções tradicionais — são um dos tesouros mais preciosos. Cantadas em celebrações, festas e reuniões familiares, estas canções preservam melodias e letras que se perderam noutros contextos. Os bailaricos, danças tradicionais, acompanham frequentemente estas manifestações musicais.
A gastronomia da região — com destaque para o ensopado de borrego, os enchidos e os doces conventuais — alimenta uma tradição de festas e convívio onde o mirandês é naturalmente a língua de conversação.
Os touros de lide, tradição enraizada na Terra de Miranda, também têm vocabulário e expressões próprias em mirandês que os mais velhos ainda dominam e transmitiram.
Desafios e futuro
O mirandês enfrenta hoje uma encruzilhada. Por um lado, o reconhecimento oficial, a investigação académica, os projetos culturais e o interesse crescente das novas gerações oferecem motivos para algum otimismo. A internet e as redes sociais trouxeram novos espaços para a expressão em mirandês — blogs, páginas de Facebook, canais de YouTube e perfis de Instagram onde se publica conteúdo na língua.
Por outro lado, os números são preocupantes. A população da Terra de Miranda envelhece e diminui. Os jovens emigram para cidades como Bragança, Porto ou Lisboa, onde o mirandês não tem qualquer utilidade prática. Nas famílias mistas — com um cônjuge de fora da região — a língua de transmissão tende a ser o português. A pressão da cultura dominante, dos media e da internet em português esmaga a presença quotidiana do mirandês.
A revitalização de uma língua minoritária é sempre um processo complexo e incerto. O exemplo do galês, no País de Gales, mostra que é possível reverter o declínio com vontade política, investimento e mobilização social. Mas as condições são diferentes: o País de Gales tem uma população muito maior, tradições de ensino bilíngue consolidadas e um apoio financeiro robusto. O mirandês precisa de soluções adaptadas à sua realidade — mais modesta em escala mas igualmente determinada.
Aprender mirandês
Para quem tem curiosidade em aprender mirandês, os recursos são ainda limitados mas estão a crescer. O "Estudo de Gramática Mirandesa" de Amadeu Ferreira é a referência mais completa. Existe um dicionário mirandês-português que pode ser encontrado em livrarias especializadas ou online. A página de Facebook "Lhéngua Mirandesa" e outros recursos digitais oferecem contacto quotidiano com a língua.
Alguns voluntários e associações culturais organizam cursos e workshops, sobretudo na região de Miranda do Douro e em Bragança. A Associação de Língua e Cultura Mirandesa, sediada em Sendim, é uma das entidades mais ativas na promoção da língua.
Aprender mirandês é, para a maioria dos portugueses, mais uma questão de afeto e curiosidade do que de necessidade prática. Mas é precisamente essa dimensão afetiva que alimenta a esperança de que a língua continue viva — não como museu, mas como expressão genuína de uma comunidade que tem orgulho em ser diferente.
Uma língua, uma ponte
O mirandês é, em última análise, uma ponte entre mundos. Liga Portugal a Espanha, o passado ao presente, a ruralidade à modernidade. Quem caminha pelas aldeias da Terra de Miranda e ouve as pessoas falar mirandês compreende que as línguas não são apenas ferramentas de comunicação — são formas de estar no mundo, memórias coletivas que merecem ser preservadas.
Num país onde a diversidade linguística é frequentemente ignorada, o mirandês lembra-nos que há mais vozes do que as que ouvimos todos os dias. E que essas vozes, por mais pequenas que sejam, contam histórias que ninguém mais pode contar.